Quiet Quitting: falta de comprometimento ou sinal de esgotamento?

Quiet Quitting: falta de comprometimento ou sinal de esgotamento?

  • 17 setembro, 2026
  • Katia Silene

Nos últimos anos, o termo “Quiet Quitting” ganhou espaço nas redes sociais, na mídia e nas discussões sobre o futuro do trabalho. Traduzido de forma literal como “demissão silenciosa”, esse conceito pode levar a interpretações equivocadas. Afinal, quem pratica essa ação não está, necessariamente, abandonando o emprego ou deixando de cumprir suas responsabilidades.

Na prática, o termo descreve um comportamento em que o profissional passa a realizar o mínimo das atividades previstas em sua função, respeitando seus horários de trabalho e estabelecendo limites entre a vida profissional e pessoal. Em outras palavras, ele ou ela deixa de assumir demandas extras constantes, responder mensagens fora do expediente ou fazer do trabalho o centro da própria vida.

Mas será que isso significa falta de comprometimento? Ou pode ser um sinal de que algo não vai bem? Vamos falar mais sobre isso na sequência

Nem sempre é desinteresse

Durante muito tempo, fomos incentivados a acreditar que um bom profissional é aquele que está sempre disponível, aceita qualquer desafio, faz horas extras sem questionar e coloca o trabalho acima das próprias necessidades, certo?

Essa cultura, muitas vezes chamada de “cultura da produtividade”, pode fazer com que o excesso seja confundido como dedicação – quando, na verdade, sabemos bem que ele pode representar um caminho para o adoecimento.

Por isso, nem todo caso de Quiet Quitting está relacionado à falta de motivação ou ao desinteresse pela empresa. Em muitos casos, trata-se de uma tentativa de proteger a própria saúde mental depois de um longo período de sobrecarga emocional.

Quando o esgotamento fala mais alto

Também vale lembrar que o esgotamento psicológico não acontece de um dia para o outro. Geralmente, ele é resultado de uma combinação de fatores, como muitas demandas acontecendo ao mesmo tempo, pressão constante por resultados, falta de reconhecimento, conflitos interpessoais, insegurança no ambiente de trabalho e dificuldade em conciliar vida pessoal e profissional.

Quando essas situações se prolongam, é comum que a pessoa passe a ter sintomas como cansaço frequente, perda de energia, irritabilidade, dificuldade de concentração e redução do envolvimento emocional com o trabalho.

Nesses casos, diminuir o ritmo pode não ser um ato de rebeldia, mas uma estratégia (consciente ou não) de autopreservação.

É importante lembrar que estabelecer limites não significa deixar de ser responsável. Pelo contrário: respeitar o próprio tempo é uma forma de cuidar da saúde física e emocional para que seja possível manter um desempenho sustentável ao longo do tempo. 

O papel das empresas

Então, embora esse tipo de comportamento seja percebido no colaborador, é importante olhar também para o contexto em que ele está inserido.

Ambientes marcados por cobranças excessivas, comunicação pouco clara, ausência de reconhecimento, metas inalcançáveis e lideranças despreparadas favorecem o desgaste emocional e reduzem o engajamento das equipes.

Por outro lado, organizações que promovem segurança psicológica, incentivam pausas, valorizam o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e mantêm uma comunicação transparente tendem a contar com profissionais mais satisfeitos e comprometidos.

Assim, em vez de perguntar “por que esse profissional está fazendo apenas o mínimo?”, talvez seja mais produtivo questionar: “o que aconteceu para que ele deixasse de se sentir motivado?”. Essa mudança de perspectiva pode revelar necessidades que estavam sendo ignoradas.

O equilíbrio é o verdadeiro compromisso

A partir de tudo isso, vale pontuar que o Quiet Quitting não deve ser visto apenas como uma tendência das redes sociais ou como um problema de comprometimento profissional. Em muitos casos, ele funciona como um alerta de que algo precisa ser revisto — seja na forma como a empresa organiza o trabalho, seja na maneira como cada pessoa se relaciona com suas responsabilidades.

Trabalhar com dedicação não significa abrir mão da própria saúde. Da mesma forma, estabelecer limites não é sinônimo de falta de interesse.

Quando o trabalho deixa de ocupar todo o espaço da vida e passa a coexistir com descanso, lazer, relações afetivas e autocuidado, aumentam as chances de construir uma rotina mais equilibrada, produtiva e, principalmente, mais saudável.

Lembrando sempre: cuidar da saúde mental não reduz o comprometimento com o trabalho. É justamente ela que torna possível sustentar uma carreira de forma consistente, preservando o bem-estar e a qualidade de vida ao longo do tempo.