Autossabotagem feminina e medo de ocupar espaços de poder

Autossabotagem feminina e medo de ocupar espaços de poder

  • 19 março, 2026
  • Katia Silene

É comum que muitas mulheres digam que querem crescer profissionalmente, liderar projetos, ocupar cargos estratégicos ou ganhar mais visibilidade. Porém, quando a oportunidade aparece, algo acontece: hesitação, insegurança, procrastinação ou até a decisão de recuar.

Não é falta de competência. Muitas vezes, é autossabotagem.

E ela não surge do nada, mas costuma estar ligada a um medo profundo, e muitas vezes inconsciente, de ocupar espaços de poder. É sobre isso que eu gostaria de aprofundar neste artigo.

O que é autossabotagem?

Antes de tudo, é importante entender que autossabotagem descreve uma situação na qual a própria pessoa cria obstáculos que dificultam seu crescimento, mesmo desejando avançar. Isso pode aparecer de várias formas, incluindo:

  • Procrastinar tarefas importantes;
  • Não se candidatar a uma promoção;
  • Minimizar as próprias conquistas;
  • Evitar exposição;
  • Desistir antes de tentar;
  • Buscar validação excessiva.

Externamente, pode parecer desorganização ou falta de ambição. Internamente, geralmente há muito medo envolvido.

O receio por trás do avanço

Para muitas mulheres, crescer significa se tornar mais visível. E visibilidade traz julgamento, cobrança e, historicamente, punição social.

Afinal, durante muitas gerações, elas foram ensinadas a serem discretas, agradáveis e colaborativas, mas nunca dominantes. Inclusive, liderança feminina, durante muito tempo, foi vista como ameaça ou inadequação.

E mesmo que hoje o discurso social incentive o empoderamento, muitos padrões internos continuam ativos. O inconsciente ainda associa poder a risco: de rejeição, de críticas e de ser chamada de arrogante ou difícil.

Assim, o cérebro tenta proteger. E uma forma de proteção é não avançar demais.

A Síndrome da Impostora e a necessidade de perfeição

Outro componente frequente é a chamada “Síndrome da Impostora”. Neste caso, a mulher acredita que não é boa o suficiente, mesmo com evidências concretas de competência.

Diferente de muitos homens, que costumam se candidatar a posições mesmo atendendo parcialmente aos requisitos, elas frequentemente sentem que precisam estar 100% preparadas.

Essa busca por perfeição se torna paralisante.

O medo de errar se mistura ao medo de exposição. E, diante da possibilidade de falhar publicamente, a autossabotagem aparece como uma saída inconsciente: “se eu não tentar, não corro o risco.”

O conflito entre poder e aceitação

Existe ainda um conflito emocional profundo: o desejo de crescer versus o desejo de ser aceita.

Para algumas mulheres, ocupar um espaço de liderança ativa gatilhos internos como:

  • “Vão me achar autoritária.”
  • “Vou perder minha feminilidade.”
  • “As pessoas não vão gostar de mim.”
  • “Vou ficar sozinha.”

Essa dualidade interna gera tensão e, muitas vezes, a necessidade de pertencimento fala mais alto do que a ambição.

A autossabotagem, então, funciona como uma forma de manter vínculos e evitar conflitos, mesmo que isso custe o próprio crescimento.

Sinais de que o medo pode estar influenciando suas decisões

Alguns indícios comuns incluem:

  • Recusar oportunidades com justificativas excessivamente racionais;
  • Focar apenas nos riscos e ignorar as possibilidades;
  • Dificuldade em se posicionar em reuniões;
  • Desvalorizar elogios;
  • Sentir ansiedade intensa diante de maior responsabilidade.

Esses comportamentos não indicam incapacidade, e sim conflitos internos não resolvido.

A importância da psicoterapia na construção de segurança interna

Diante de todos esses contextos, é válido lembrar que superar a autossabotagem não significa se forçar a agir sem medo, mas compreender de onde esse receio vem e agir em cima dele.

Nesse sentido, com o auxílio da psicoterapia, é possível:

  • Identificar crenças internalizadas sobre poder e feminilidade;
  • Trabalhar experiências passadas de rejeição ou desvalorização;
  • Fortalecer a autoestima baseada em competência real;
  • Desenvolver segurança emocional para lidar com críticas;
  • Construir uma identidade que inclua autoridade sem culpa.

O objetivo não é transformar personalidade, mas ampliar possibilidades.

Ocupar espaços de poder não deveria significar abrir mão de quem se é, pois a liderança também pode ser exercida com empatia, firmeza e autenticidade.

Portanto, se você sente que trava sempre que está prestes a dar um passo maior, talvez seja um bloqueio antigo pedindo para ser compreendido.

E enfrentar esse obstáculo pode ser o início de uma nova forma de se posicionar no mundo, com mais autonomia, segurança e liberdade.