É comum que muitas mulheres digam que querem crescer profissionalmente, liderar projetos, ocupar cargos estratégicos ou ganhar mais visibilidade. Porém, quando a oportunidade aparece, algo acontece: hesitação, insegurança, procrastinação ou até a decisão de recuar.
Não é falta de competência. Muitas vezes, é autossabotagem.
E ela não surge do nada, mas costuma estar ligada a um medo profundo, e muitas vezes inconsciente, de ocupar espaços de poder. É sobre isso que eu gostaria de aprofundar neste artigo.
O que é autossabotagem?
Antes de tudo, é importante entender que autossabotagem descreve uma situação na qual a própria pessoa cria obstáculos que dificultam seu crescimento, mesmo desejando avançar. Isso pode aparecer de várias formas, incluindo:
- Procrastinar tarefas importantes;
- Não se candidatar a uma promoção;
- Minimizar as próprias conquistas;
- Evitar exposição;
- Desistir antes de tentar;
- Buscar validação excessiva.
Externamente, pode parecer desorganização ou falta de ambição. Internamente, geralmente há muito medo envolvido.
O receio por trás do avanço
Para muitas mulheres, crescer significa se tornar mais visível. E visibilidade traz julgamento, cobrança e, historicamente, punição social.
Afinal, durante muitas gerações, elas foram ensinadas a serem discretas, agradáveis e colaborativas, mas nunca dominantes. Inclusive, liderança feminina, durante muito tempo, foi vista como ameaça ou inadequação.
E mesmo que hoje o discurso social incentive o empoderamento, muitos padrões internos continuam ativos. O inconsciente ainda associa poder a risco: de rejeição, de críticas e de ser chamada de arrogante ou difícil.
Assim, o cérebro tenta proteger. E uma forma de proteção é não avançar demais.
A Síndrome da Impostora e a necessidade de perfeição
Outro componente frequente é a chamada “Síndrome da Impostora”. Neste caso, a mulher acredita que não é boa o suficiente, mesmo com evidências concretas de competência.
Diferente de muitos homens, que costumam se candidatar a posições mesmo atendendo parcialmente aos requisitos, elas frequentemente sentem que precisam estar 100% preparadas.
Essa busca por perfeição se torna paralisante.
O medo de errar se mistura ao medo de exposição. E, diante da possibilidade de falhar publicamente, a autossabotagem aparece como uma saída inconsciente: “se eu não tentar, não corro o risco.”
O conflito entre poder e aceitação
Existe ainda um conflito emocional profundo: o desejo de crescer versus o desejo de ser aceita.
Para algumas mulheres, ocupar um espaço de liderança ativa gatilhos internos como:
- “Vão me achar autoritária.”
- “Vou perder minha feminilidade.”
- “As pessoas não vão gostar de mim.”
- “Vou ficar sozinha.”
Essa dualidade interna gera tensão e, muitas vezes, a necessidade de pertencimento fala mais alto do que a ambição.
A autossabotagem, então, funciona como uma forma de manter vínculos e evitar conflitos, mesmo que isso custe o próprio crescimento.
Sinais de que o medo pode estar influenciando suas decisões
Alguns indícios comuns incluem:
- Recusar oportunidades com justificativas excessivamente racionais;
- Focar apenas nos riscos e ignorar as possibilidades;
- Dificuldade em se posicionar em reuniões;
- Desvalorizar elogios;
- Sentir ansiedade intensa diante de maior responsabilidade.
Esses comportamentos não indicam incapacidade, e sim conflitos internos não resolvido.
A importância da psicoterapia na construção de segurança interna
Diante de todos esses contextos, é válido lembrar que superar a autossabotagem não significa se forçar a agir sem medo, mas compreender de onde esse receio vem e agir em cima dele.
Nesse sentido, com o auxílio da psicoterapia, é possível:
- Identificar crenças internalizadas sobre poder e feminilidade;
- Trabalhar experiências passadas de rejeição ou desvalorização;
- Fortalecer a autoestima baseada em competência real;
- Desenvolver segurança emocional para lidar com críticas;
- Construir uma identidade que inclua autoridade sem culpa.
O objetivo não é transformar personalidade, mas ampliar possibilidades.
Ocupar espaços de poder não deveria significar abrir mão de quem se é, pois a liderança também pode ser exercida com empatia, firmeza e autenticidade.
Portanto, se você sente que trava sempre que está prestes a dar um passo maior, talvez seja um bloqueio antigo pedindo para ser compreendido.
E enfrentar esse obstáculo pode ser o início de uma nova forma de se posicionar no mundo, com mais autonomia, segurança e liberdade.
