Ser uma “mulher multitarefa” é algo que, até hoje, é visto como elogio. Aquela que trabalha, cuida da casa, organiza a rotina dos filhos, mantém a vida social ativa, acompanha os pais, resolve imprevistos e ainda encontra tempo para se cuidar (ou pelo menos tenta) costuma ser admirada pela sua capacidade de “dar conta de tudo”.
Por outro lado, o que raramente se fala é o preço emocional dessa performance constante.
Afinal, por trás da máscara de eficiência e da produtividade, muitas mulheres vivem em estado permanente de alerta, com sensação de urgência contínua, culpa por descansar e dificuldade real de desligar a mente.
É neste momento que a multitarefa deixa de ser habilidade e passa a se transformar em adoecimento. Vamos conversar mais sobre isso?
A romantização da mulher que “aguenta tudo”
Historicamente, as mulheres foram socializadas para cuidar, organizar, prever necessidades e sustentar emocionalmente os ambientes em que estão. Além das responsabilidades objetivas, existe uma carga mental invisível: lembrar compromissos, antecipar problemas, administrar conflitos e manter o funcionamento da rotina.
E, com a inserção massiva no mercado de trabalho, essas funções não desapareceram, apenas se acumularam.
O resultado é uma rotina fragmentada, com múltiplas demandas simultâneas e quase nenhum espaço de pausa real. O cérebro passa a operar em modo de sobrevivência, priorizando tarefas e respondendo a estímulos o tempo inteiro.
O problema é que essa ativação constante do sistema de alerta está diretamente relacionada ao desenvolvimento de ansiedade crônica.
Quando produtividade vira tensão constante
É comum que mulheres ansiosas relatem:
- Dificuldade de relaxar mesmo quando “não há nada urgente”;
- Sensação de que estão sempre atrasadas ou devendo algo;
- Irritabilidade frequente;
- Pensamentos acelerados antes de dormir;
- Culpa ao dizer “não”;
- Medo de decepcionar os outros;
- Necessidade de controle excessivo.
O problema é que, muitas vezes, esses sinais são normalizados. Elas acreditam que é “assim mesmo”, que faz parte da personalidade ou que é apenas uma fase mais puxada da vida.
Mas viver constantemente em estado de tensão não é normal, mas um sinal de sobrecarga emocional.
A armadilha do dar conta
Existe uma crença silenciosa que sustenta esse padrão: “Se eu não fizer, ninguém fará direito” ou “Eu preciso ser forte”. Essa mentalidade reforça a centralização de responsabilidades e dificulta a delegação.
Ao mesmo tempo, há uma expectativa social que valoriza a mulher produtiva, organizada e resiliente. Descansar pode ser interpretado como fraqueza. Pedir ajuda pode ser visto como incompetência.
Essa combinação cria um ciclo perigoso de assumir responsabilidades excessivas, sentir-se constantemente sobrecarregada, não pedir ajuda, culpar-se por não dar conta e, consequentemente, aumentar a ansiedade.
Com o tempo, o corpo começa a responder: insônia, tensão muscular, dores frequentes, alterações no apetite, crises de ansiedade ou até episódios de burnout.
Multitarefa não é superpoder
Aqui, é importante lembrar que, do ponto de vista psicológico e neurocientífico, o cérebro não realiza múltiplas tarefas complexas simultaneamente — ele alterna rapidamente entre elas. Essa alternância constante consome energia cognitiva e aumenta o nível de estresse.
Ou seja: a “super habilidade” da multitarefa pode, na prática, ser um dos fatores que mantêm o organismo em hiperativação.
Quando isso se torna crônico, passamos a viver em um estado interno de alerta permanente, como se algo estivesse sempre prestes a dar errado.
O papel da terapia na reconstrução de limites
Romper com esse padrão não significa abandonar responsabilidades, mas aprender a redistribuí-las, inclusive emocionalmente.
E a psicoterapia pode ter um papel essencial nesse processo. Por meio de sessões conduzidas por um profissional qualificado, é possível:
- Identificar crenças que sustentam a necessidade de dar conta de tudo;
- Trabalhar culpa e medo de desapontar;
- Desenvolver habilidades de comunicação assertiva;
- Aprender a estabelecer limites saudáveis;
- Reconstruir a relação com descanso e autocuidado.
Mais do que organizar a agenda, trata-se de reorganizar o lugar que essa mulher ocupa na própria vida.
Dar conta de tudo não deveria ser pré-requisito para ser valorizada. E cuidar da saúde mental não é egoísmo, mas uma condição básica para que qualquer outra área funcione de forma saudável.
Portanto, se a sua rotina parece não ter pausas e a ansiedade se tornou companhia constante, talvez não seja falta de força, e sim excesso de peso que você não deveria estar carregando sozinha.
Reconhecer isso já é um primeiro passo importante.
